R. C. ZÍMMERL'
EXPLICA COMO FOI ESCRITA A SAGA HIPÉRION

Olá, Finalmente a saga original da Hipérion foi concluída. (Ufa!!!). Não foi fácil ou simples com dois filhos pequenos, mas está finalmente pronta.

E se você quer saber qual foi o processo que usei para elaborá-la e como foi que a escrevi, primeiramente agradeço seu interesse, secundariamente digo-lhe que está no lugar certo. Deixemos de delongas e vamos ao processo criativo que deu origem aos livros atualmente disponíveis da Saga.

Boa leitura, espero que lhe seja útil.


Começando

A origem da história foi explicada na entrevista, portanto não perderei tempo recontando-a aqui, o que farei é descrever, à partir do momento em que decidi passar ao formato livro qual foi o processo decisório e suas consequências para chegar ao resultado final.
A primeira coisa que considerei foi a abrangência da saga. A ação (timeline) idealizada envolvia quatro viagens da nave. De modo extremamente resumido poderíamos dizer assim: viagem de conhecimento; viagem do grande problema desconhecido; viagem preparada que resulta num problema imenso; viagem derradeira para solucionar o problema imenso.
Em todos os casos temos um ponto comum: a viagem começa rumo ao desconhecido, com nave e tripulação supostamente preparados para enfrentá-lo, mas, o desconhecido, por sua própria definição, acarreta em resultados imprevistos que demandam a ação criativa e/ou desesperada para superar e permitir um regresso bem sucedido.
De certo modo é uma analogia às coisas que fazemos na vida, novos empregos, tarefas, provas. Costumamos nos preparar para algo e, no fim, aquilo que enfrentamos se mostra totalmente diverso daquilo que imaginávamos e temos que improvisar.
Claro que seria possível escrever a narrativa de todas as viagens num só livro ou em dois volumes, mas isso resultaria em livros muito grandes, por isso decidi redigir um livro por viagem.
Tendo sido tomada tal decisão aí vem o tempero: a saga não se restringe à viagem de uma nave transdimensional, isso é o pano de fundo, de fato, é o arcabouço. A saga é sobre espionagem, tramas governamentais, a sordidez de interesses mesquinhos contra ideais nobres, do bem da humanidade. Essa história não somente permeia a trama das viagens como a sustenta. E temos o toque final, o colorido do quadro, que se trata dos tipos humanos envolvidos, sua interação, suas diferentes crenças e costumes. Como um grupo heterogêneo sofrendo as mesmas agruras coopera e interage a fim de obter um resultado aparentemente comum, embora com finalidades diversas.
Então... Chegando no delineamento dos eventos centrais até o "amargo" fim vamos por mãos à obra.

Estabelecendo caracteres e características

Ok, temos a trama e as subtramas. O sustentáculo e a distribuição dos episódios agora falta definir quais serão os personagens dessa história, os principais, os de apoio e os eventuais. Uma boa história se perde se os personagens forem ruins, uma má história, se os personagens forem bons, se salva. Assim é extremamente importante compor um bom quadro de personagens que permita desenvolver a narrativa de modo adequado e interessante ao leitor.
Uma de minhas maiores preocupações era concernente à verossimilhança, deste modo tive máximo cuidado com dois aspectos essenciais: evitar estereótipos e caricaturas, evitar personagens superficiais (sem profundidade na personalidade).
Mesmo grandes obras clássicas possuem personagens sem profundidade. A imensa maioria dos autores carrega na profundidade do protagonista e, se tanto, define uns dois ou três coadjuvantes com características mais marcantes, deixando os demais personages como que numa pasta sépia pasteurizada, ou seja, praticamente iguais. Mas sabemos que as pessoas não são assim, logo era essencial, a meu projeto, dispor de características de personalidade adequadas à todos os personagens, mesmo por que grupos aprisionados em ambientes fechados por longo tempo acabam adquirindo certa coesão no geral enquanto as características mais peculiares se sobressaltam.
Daí cada personagem passou a ter uma ficha de estilo, com suas características principais e, de certo modo, sua história de vida, de modo a torná-los mais realistas. Também foi essencial definir as características técnicas da nave e equipamentos o mais próximo possível do real, uma vez que fãs de ficção gostam muito de poderem saber que, um dia, possívelmente o que está lá estará disponível no mercado.
Outra coisa importante foi ler os sucessos recentes, "Código Da Vinci", "Crepúsculo", "Harry Potter", entre outros para entender melhor a linguagem escrita e seu público contemporâneo. É importante ao autor saber qual "pegada" dará ao texto antes mesmo de começar para não se perder ou criar um texto chato ou ininteligível.

Redigindo

Agora temos os personagens e a história a ser contada, chegou a hora de pô-la no texto. Há, é claro, alguns pontos chaves, diálogos chaves, cenas de grande importância. Essas partes foram escritas conforme as pude imaginar, durante a elaboração da história como um todo, ou seja, enquanto escrevia o primeiro volume já havia trechos de diálogos ou cenas dos demais episódios cujos rascunhos estavam devidamente escritos, e esse processo ocorreu por todo o tempo da obra. O último volume, por exemplo, quando começou a ser escrito já estava com a batalha final composta em rascunho.
Por outro lado dispor de uma linha mestra não quer dizer muito em termos de resultado final: a linha mestra poderia ser "TITANIC: o navio sai do porto, colide com um iceberg à noite e muitos morrem por que não há barcos salva-vidas suficientes e o resgate demorará a chegar. E minha história envolve uns dez personagens centrais cujos nomes, personalidades e interrelações estabeleci."
Isso diz quase nada. A história vai emergir mesmo é na hora de escrevê-la.
E esse processo é misterioso. Relações que imaginei no início da obra acabaram não se viabilizando no correr do texto enquanto outras que não supunha inicialmente desabrocharam e protagonizaram grandes momentos.
Vou exemplificar: a Bia e o Capitão deviam ter uma quedinha um pelo outro, por serem de certo modo opostos: ele é metódico, disciplinado e prudente, ela é extrovertida, imprudente e atirada. No entanto acabou por não haver uma química entre eles conforme a história se desenvolveu e ela acabou tendo o John como paquera. Isso não era previsto no plano original da obra. Outra personagem que se rebelou e se revelou foi a Jéssica. Ela era uma personagem que precisava no episódio dois, constava no um somente para figurar, entretanto acabou sendo uma das protagonistas do um e dominou a cena por suas características fazendo um belo par com o vilão.
O que quero dizer com isso?
Quero dizer que o processo criativo deve ser deixado livre. O projeto da obra é essencial para um texto coeso e coerente mas será formada pelos elementos nela constantes, nem sempre pela vontade do autor, senão o texto acaba ficando visivelmente forçado. Você forçará um resultado e isso ficará patente ao leitor, pode ter certeza.

Finalizando

Após ter escrito o episódio ele está pronto? Claro que não! A finalização do texto inicial, ou seja, o rascunho ainda está longe de deixá-lo pronto. O texto do último volume da Hipérion estava pronto em 2013 mas só em 2017 o boneco foi impresso. O que aconteceu aí?
Primeiro falta passar a obra a limpo fazendo sua adequação. O que é isso? Depende do que o autor deseja. O segudo volume da Hipérion, por exemplo, quando o rascunho foi terminado tinha mais de setecentas páginas. Muita coisa! Precisava ser diminuído, assim muita história foi cortada e outras partes resumidas. Outros pontos de um livro podem e devem ser melhor elaborados, outros, prolixos, resumidos. Partes supérfluas descartadas (eu evito encheção de linguiça), de modo a tornar o texto adequado, fluído e sem pontas soltas.
Passado o livro a limpo, que é a parte mais trabalhosa da revisão, vem as demais revisões.
A primeira delas é a revisão de estilo. Como eu disse trato de deixar meus personagens com profundidade e características peculiares. Na revisão de estilo, que é feita personagem por personagem, eu corro a história em todos os pontos em que o personagem atua para certificar que suas falas e atitudes estão em conformidade com sua personalidade. Que suas reações e emoções são condizentes. Essa é uma das revisões mais sensíveis por que exige entrar na personalidade do personagem para ver sob sua ótica a história. Os personagens, todos eles, querem aparecer nas histórias, querem espaços onde possam desempenhar sua participação e o autor deve tolher isso em prol da fluidez do texto e economia, mantendo o absolutamente necessário ao desenvolvimento da narrativa.
Um dos pontos de estilo a serem percebidos é como os personagens reagem ao longo da aventura, ou seja, como eles se enturmam e como seu comportamento se adapta às diferentes situações. Isso é particularmente notório se compararmos o livro um com o livro quatro, no primeiro há o entusiasmo e a ansiedade da descoberta e o medo inicial ante ao desconhecido, no último o clima pesado por todos os problemas passados e face ao que enfrentarão. Isso molda as interações humanas e é retratado no livro.
A segunda é a revisão digital final. Finda a adequação de estilo vem a grande revisão do texto, onde são checadas pontas soltas da história, palavras perdidas em decorrência de alterações de texto, concordância verbal e nominal, erros de português, ou seja,é A Revisão geral. Quando termina, o texto final da obra está quase pronto.
Ai vem a impressão do boneco do livro. O exemplar zero. Nesse exemplar é realizada a revisão final e revisão crítica, como se pode chamar. O autor lê o texto impresso tanto como autor quanto como leitor, fazendo as correções de espaçamentos e formatação, ajusta pontos da história que precisarem de retoques e corrige quaisquer eventuais erros que tenham passado pela revisão no micro. A crítica a passagens mal definidas as vezes demanda acréscimo de texto ou exclusão, por vezes alterações de monta são feitas. Finda essa revisão aí temos o texto final da obra, pronto para o registro na Biblioteca Nacional após o quê pode ser comercializado.

Em suma esse foi o processo que empreguei. É o ideal? O melhor? O mais prático? Não sei. Sei que foi o ideal, melhor e mais prático para mim. Se você pretende escrever sua saga ou seu livro, seja no gênero que for, talvez essa milha explicação lhe ajude a ter uma ideia de como criar seu método. Se, somente tinha curiosidade em saber como ela foi escrita, espero a ter sanado.

Se quiser entre em contato ou deixe sua opinião no site, por que todo esse trabalho teve como objetivo prover um bom texto para seu entretenimento.