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A MORTE DE NOSSO IDIOMA
O FUNK E A PÉSSIMA EDUCAÇÃO NO BRASIL
[Escrito em 18/02/14]


      Muita gente há contrária à onda Funk, em geral por conta da vulgaridade e libertinagem em muitas letras, principalmente em conta da pouca idade de boa parte de seu público, além de notória apologia ao crime, uso de drogas e promiscuidade que são patentes em uma expressiva quantidade de canções. No entanto há um detalhe que escapa à maioria dos críticos e até daqueles que "curtem" essa expressão artística: seu significado intrínseco.

      O Funk em sí não é a melodia, as batidas ritmadas e repetitivas; as sequências sonoras dançantes tem seu propósito e contexto, entretanto estão longe de ser o cerne, o objetivo, das músicas, a essência do funk são suas letras, as "canções", muitas vezes apenas faladas como no RAP.

      Ocorre, porém, que usar a palavra, o idioma, num contexto mais elaborado para expressar suas ideias, ideais ou fazer apologia ao que quer que seja é antigo na espécie humana, é o que chamamos de trova, poesia.

      O problema advém quando esse idioma está morrendo!

      As sucessivas, em especial a última, reforma ortográfica, feita por ineptos e ignaros, demonstram o vilipêndio de nosso patrimônio histórico maior, nosso idioma, raiz e arcabouço de nossa cultura. Os néscios que adoram mutilar o idioma português apreciam em especial suprimir os acentos, ou "diacríticos", mais apropriadamente falando, particularmente os "diferenciais", tornando cada vez mais imcompreensível a linguagem escrita. O exemplo mais claro é a da frase "REMÉDIO PARA O CORAÇÃO". Nesse caso, se sou cardiopata devo tomá-lo ou não? Doutos poderão dizer, se o remédio for para parar o coração a frase deveria ser "remédio QUE para o coração", no entanto a dúvida permaneceria. Como saber se quem escreveu a frase é douto o bastante?

      Voltando à questão do funk, uma letra de sucesso, de uma música que teve um clip relativamente caprichado e dispendioso, é incompreensível, por exemplo, numa parte que assim diz: "O meu sensor de piriguete explodiu", quer dizer o quê? Que a cantora é uma piriguete e o sensor dela explodiu? É o que está dito, então ela deve deixar de ser piriguete ou adquirir um novo sensor. Todavia, considerando o contexto pejorativo do adjetivo "piriguete" e dada a agressividade expressa na letra, a suposição que faço é que esse não foi o objetivo da cantora. Nesse caso, a frase correta seria "o meu sensor ANTI-piriguete explodiu", ou ainda, a vista do início da canção que diz "desejo à todas inimigas vida longa" estar no plural, a frase poderia ser modificada para "o meu sensor de piriguetes", o que faria sentido, tendo em vista a cantora ser uma só e o adjetivo piriguetes estar no plural só poderia estar relacionado a algo alheio à cantora.

      A ignorância quanto ao uso do idioma ainda se mostra noutra frase da mesma canção: "Aqui dois papos não se cria e nem faz história". A concordância verbal do singular cria e faz está relacionada à quê? Ao advérbio aqui? Dois papos, sendo plural, obriga a frase a ser "Aqui dois papos não se criaM e nem fazEM história".

      Outra frase que ficou sem sentido é "Pra que elas vejam cada dia mais nossa vitória", nesse caso pela falta de um elemento de ligação. Por que "Pra que elas vejam à cada dia mais nossa vitória", "Pra que elas vejam em cada dia mais nossa vitória", "Pra que elas vejam cada dia E mais nossa vitória" ou, ainda "Pra que elas vejam cada dia mais É nossa vitória" contém um significado implícito diferente. No primeiro caso a vitória se faz crescente enquanto no seguinte a vitória é a mesma, porém, dia após dia, elas podem ver de forma mais patente essa suposta vitória, que, aliás, não se identifica no restante da letra. Quem seriam as inimigas? Vitória sobre o quê? O terceiro exemplo enseja anexa à visão dos dias a dita vitória e o último exemplo mostra que elas verem cada dia é a vitória que a cantora anseia por.

      E o problema é que quem compõe funk muitas vezes diz que isso não importa, a norma culta, embora ultrajada nesses acordos ortográficos criminosos, que destróem nossa cultura e identidade, não deve ser levada em consideração, no entanto o objetivo da palavra, seja falada ou escrita, é transmitir uma mensagem que possa ser entendida pelo receptor, ou seja, ser um instrumento de comunicação. Quando são supressos acentos, regras são alteradas ou ignoradas por "artistas" o resultado é a perda o principal objetivo do idioma, que é a comunicação clara e inequívoca.

      Infelizmente a educação atual do país está nivelada por baixo. Nosso idioma, de estrutura latina, não é igual ao anglo-saxão idioma inglês, em nosso idioma os acentos enriquecem o vocabulário e os significados. Os defensores da caça aos acentos dizem que se o inglês não os tem e, ainda assim, permite uma comunicação clara, por que nosso idioma precisa deles?

      Partindo desse pressuposto então falemos inglês de uma vez! Ora, nosso idioma latino precisa dos diacríticos, faz parte dele. Por que então não tiramos as vogais? Vamos usar só consoantes. Esse bando de patetas deviam ser presos por crime de lesa-cultura por fazer esses acordos. Veja, por exemplo, o Espanhol, o Francês, o Italiano e o Inglês. Esses outros idiomas não ficam fazendo acordos de mutilação do idioma, da cultura. Esses povos respeitam suas tradições e história, coisa que nós estamos longe de fazer.

      Aí vamos reclamar que nossas crianças nas escolas vão mal em português? Que importa isso? Se até para os ilustres imortais da Academia Brasileira de Letras o idioma não serve pra nada, não é respeitado como se deve, ficam destruindo-o sob pretensa simplificação como exigir que o restante da população respeite regras que poderão mudar ao bel prazer de um ou mais idiotas néscios?

      A partir do momento no qual autoridades e gente que se diz versada em nosso idioma o respeitar, e que revoguemos essas mudanças ortográficas nefastas havidas em 1971 até aqui que só serviram para vilipendiar nossa "última flor do Lácio", poderemos achar que somos um país sério, um país com história, que respeita sua origem e sabe se comunicar. Ai podemos pensar em uma educação adequada, por que sem um idioma capaz de servir de ferramenta para construção de entendimento, não há como esperar haver compreensão e, sem ela, não é possível o aprendizado, a cultura se esvai e, com ela, o futuro.

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Olavo Bilac (1865-1918)

      Escrever direito, entender os porquês das regras de acentuação, sinalização, construção de frases, concordâncias nominais e verbais, é essencial para se comunicar corretamente, coisa que cada vez menos nós, brasileiros, estamos sendo capazes de fazer e o último acordo ortográfico só veio a consolidar. É mais que necessário entender que palavras homógrafas não homófonas precisam de acentos que as diferenciem, suprimí-los não é simplificar o idioma e sim avacalhar com ele, principalmente quando tais homógrafos são de classes gramaticais diferentes.

Este o este do governo que governo. (depois da reforma de 1971)
Antes da reforma de 1971 seria: Êste é o este do govêrno que governo.
Vede, vede a sede da sede! / Vêde, vede a sede da sêde!

      A união ortográfica de países de língua portuguesa é desejável, certamente, mas não imprescindível e muito menos deve levar à supressão de regras essenciais à comprensão do texto escrito.